domingo, 12 de abril de 2015

Vasculhando o meu Sotão

DESAFIO proposto pelo Finurias em 2007 ao qual respondi com um facto real da minha vida!

No 52...já ninguém mora!



Eu sentia que havia algo de anormal contigo, apesar de todos que te rodeavam dizer que eram coisas da minha cabeça.
Não, não era e pus-me a caminho onde as portas foram abertas. Depois de seis longas horas bem penosas, rodeada por oito médicos, ironicamente 52 vezes picada teria que aguardar pelo veredicto: se o que tinha sido descoberto fosse através do sangue, não haveria nada a fazer, se fosse através das urinas teríamos mulher.
Eras tão pequenina, tão indefesa e na saída sentei-me no último degrau de uma escadaria sem fim. Chorei e as minhas lágrimas molharam o teu rosto acalmando o teu gemer porque os teus bracinhos e calcanhares ficaram numa lástima!

Apesar de não ter dormido durante quatro dias e quatro noites e agarrada à esperança de que tudo iria dar certo, esperava o alô nos vários contactos que dei. Trabalhei o dobro porque é no trabalho que carrego baterias.
Ainda hoje é tão nítido o teu olhar meu amigo: Fatyly telefone...é para ti mulher. Ainda hoje sinto o teu abraço enquanto ouvia a frase mais bela que ouvi: venha amanhã de manhã, porque vamos ter MULHER! Desliguei, rodei e foi no teu peito que dei vazão a tanta dor sufocada. Em peso a secção, envolveu-me numa bola humana!
A família emudeceu porque viram que eu tinha razão. Os meus pais foram os únicos que estiveram sempre presentes. Para os exames e vistorias estava no hospital às 6 da manhã e o meu pai era quem ia buscar a neta ao Rossio e a trazia para o infantário.
Da boca do pai nunca ouvi uma palavra amiga ou de força, nunca me acompanhou ao hospital, talvez tenha sido a forma que encontrou para o seu sofrimento interior. Nunca soube!
Mas para ela ainda hoje o avô é recordado como o pai presente mas ausente que teve.
Nunca faltei, mas se entrasse depois das onze, perdia o direito ao subsídio de almoço. Ao meu chefe (já falecido) devo os 15 ou 20 minutos que chegava atrasada.
Foram doze anos bem penosos onde a maioria dos exames eram feitos bem perto do hospital, ironicamente no nº. 52.
Tudo foi ultrapassado porque eu venci, tu venceste, eles venceram.
Hoje, apesar de "baixinha" és linda e a segunda flor mais bela do meu jardim! És o amor do teu amor que é tão alto como alto é o teu sentido de simplicidade ao enfrentares a vida.
Voltei à rua que tantas vezes foi molhada por lágrimas e parei naquela porta que tão bem conhecia e com a mão pousada na mesma não me contive e chorei de olhos postos sei lá onde.
Senti uma mão no meu ombro...desculpe minha senhora...no 52... já ninguém mora!

(Junho de 2007)

17 comentários:

  1. Tenho uma ideia de te ter lido isto em tempos. Mas reler foi tão bonito.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olha ele por aqui? Sim já foi escrito há uns aninhos e resolvi guardá-lo aqui:):)

      Beijocas e obrigado

      Eliminar
  2. Respostas
    1. Gargalhadas...será que sabes quando nasceste?:-)

      Beijocas e obrigado

      Eliminar
  3. Lembro-me bem deste texto e de como fiquei comovida.
    Beijocas

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sim e guardo os comentários que fizeram e o teu foi um deles!

      Beijocas e obrigado

      Eliminar
  4. Junho de 2007 ainda não tinha nascido para a blogolandia. Por isso hoje foi a primeira vez que li o texto.
    Gostei,claro
    Kis :=)

    ResponderEliminar
  5. O texto, muito bonito e comovente, é novidade para mim.
    Beijocas, boa semana

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Foram momentos muito difíceis...mas já passou:)

      Boa semana

      Beijocas e obrigado

      Eliminar
  6. E assim o n.º 52 ganhou um significado simbólico. :)

    Beijinhos e boa semana! :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Já passou mesmo a "simbólico"!

      Beijocas e obrigado

      Eliminar
  7. Que bela lição de vida!
    Um texto que é muito mais do que isso. Primeiro o murro no estômago do sofrimento, da aflição, da dor que se adivinha.
    Depois? Depois a alegria de saber que tudo foi ultrapassado, que a sua menina está bem, que o seu amor de mãe ajudou a que o diagnóstico fosse feito mais cedo, uma vez que todos diziam não haver problema.
    Ser Mãe é isso mesmo, ver / sentir aquilo que mais ninguém vê e sente.
    Obrigada pela partilha de momentos tão especiais.
    Beijinho às duas.

    ResponderEliminar
  8. Gostei muito, Fatyly. É um texto limpo, se é que se pode designar de limpo um texto onde passa muita vida vivida, vivida com muita dor à mistura. Dizem os que sabem destas coisas de bem dizer, que é na dor que se forma o carácter, não sei se é bem assim mas anda lá perto, acredito que sim, acredito que precisamos por vezes de passar por muita coisa, e passar com dignidade, para que um dia se traduza por um ser humano melhor. Cá para mim e da forma como fala das suas netas/filhas, é com certeza um ser humano melhor. Um grande bem haja :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sim Maria, muita gente deveria passar por alguma coisa que as fizesse valorizar mais os sentimentos e o sofrimento dos outros e deixarem de ser lamechas "de barriga cheia". Lamentarem-se numa de nham, nham e afinal estão rodeadas de tudo, para além de serem umas melgas insuportáveis não valorizam as relações humanas. É o que eu acho.
      Passei por muitas, mas muitas e numa sociedade onde os valores morais escoam cano abaixo todos os dias, eu todos os dias tento tapar o "ralo" de muitos para se tornarem melhores e ou melhorar a sua própria vida. Para isso não é preciso muito...por vezes basta um simples: alô, como estás? ou então um abraço:)

      Beijocas e obrigado

      Eliminar
    2. Sim Maria, muita gente deveria passar por alguma coisa que as fizesse valorizar mais os sentimentos e o sofrimento dos outros e deixarem de ser lamechas "de barriga cheia". Lamentarem-se numa de nham, nham e afinal estão rodeadas de tudo, para além de serem umas melgas insuportáveis não valorizam as relações humanas. É o que eu acho.
      Passei por muitas, mas muitas e numa sociedade onde os valores morais escoam cano abaixo todos os dias, eu todos os dias tento tapar o "ralo" de muitos para se tornarem melhores e ou melhorar a sua própria vida. Para isso não é preciso muito...por vezes basta um simples: alô, como estás? ou então um abraço:)

      Beijocas e obrigado

      Eliminar