Ontem assisti a algo que me incomodou no Centro de Saúde enquanto aguardava pela minha consulta.
Entrou um casal com ar de intelectuais, na casa dos cinquenta anos, ele com mais manias do que ela, não cumprimentaram e foram ao balcão.
Às tantas oiço: Pois é minha senhora, se fosse toxicodependente, preto e outros, não pagaria nada, mas como somos portugueses tenho de largar 10 euros e sentaram-se mediante o olhar de todos.
Há avisos na sala para que se desligue o telemóvel ou os ponham no silêncio!
Ao lado de mim estava um preto que só abanou a cabeça.
Pus-me a pensar nesta tristes figurinhas de merda numa sociedade que é a nossa.
Toca um telemóvel e de quem? pois claro! Foi de imediato avisado pelo médico que vinha chamar o seu utente.
Passaram-se 3 horas e o tal "garanhão" perguntou quem estava para a médica X. Respondi EU e o preto levantou a mão e...a seguir sou eu!
A Senhora importa-se de eu ir primeiro porque...nem deixei acabar...
Primeiro boa tarde, segundo não deixo porque sou toxicodependente, preta e chinesa, mas paguei 5 euros. O que o senhor disse foi para nós ouvirmos e se tinha a reclamar fale com o ministro, e respeite quem está na sala, já que nem se deu ao trabalho de ver!
A médica chamou-me e eu disse ao preto, vá o senhor primeiro que eu vou a seguir e assim foi para "fúria do tipo" ... não devia ter feito isso. Cale-se por favor de uma vez por todas, ainda não parou de barafustar e não parece que estar doente, já que paciência tem limite, por acaso reparou na idade do preto? reparou na sua perna e pé? e olhe que ele também pagou 5 euros! Ficou vermelho que nem um pimentão e a mulher enquanto ali esteve não abriu a boca para nada, o monólogo que se ouvia na sala era apenas "dele".
Mais uma hora e tal, entrada e saída de dois enfermeiros e quando o preto saiu, foi ajudado e sentou-se de novo ao meu lado, agradeceu-me com dois beijos e disse-me baixinho: ai menina não sei para onde vou, mas havia de haver mais gente como a menina! Mas se estava tão mal devia ter falado. Não vale a pena menina!
A médica não me chamou até chegar os bombeiros para o levarem com todas os formalismos e papelada.
Já sentado na cadeira disse-me adeus com os olhos cheios de lágrimas...e eu acenei-lhe com o meu famoso inté e que ia correr tudo bem ao qual ele correspondeu com um sorriso tão rasgado. E no mais alto que pode desejou a todos as melhoras!
Entrei e a médica encostou-se na cadeira e disse tu és mesmo de garra e fizeste muito bem porque este desgraçado está num sofrimento que ninguém sabe e vai seguir agora para o hospital. É da tua terra! Então Drª.? há dois anos acompanhei a mulher dele até morrer e ele só cá vinha buscar a medicação.
Já não vinha cá desde então e aparece-me neste estado sem dizer que precisava de uma urgência. Pois Drª. na volta queria que fosse a senhora a vê-lo! A Doutora de facto ama a sua profissão, outro qualquer mandaria para baixo, depois tinha que ir não sei onde apanhar a injecção e soro, esperar pelos bombeiros à chuva e ao frio...porque lá em baixo nunca há cadeiras e ninguém se levante para dar lugar a quem mais precisa!
Quando saí disse boa noite a todos e vim-me embora a pé e chorei todo o caminho. Caramba...tudo aquilo me incomodou tanto, porque raio sou assim? Porque hei-de deparar-me como pessoas tão intolerantes e desumanas e RACISTAS?
Ironia do destino
Hoje fui tomar o meu café habitual o mais longe possível pois sabe-me bem andar bem cedo. Nem reparei no casal que estava no balcão. Quando ia pagar disseram-me que já estava pago e mediante a minha cara...olhei para o lado e quem vejo?
"O fulaninho" e a sua mulher.
Obrigado, mas não era preciso...não minha senhora obrigado eu e ela nós!
Não lhes disse mais nada e saí.
Acho que ontem plantei mais uma árvore de "gestos simples mas humanos"