domingo, 6 de dezembro de 2015

POESIA

INTERTEXTO

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Também não me importei

Agora estão a levar-me
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo."

Bertolt Brecht

Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.

Bertolt Brecht


SE CORAS NÃO CONTO

Tu queres que eu conte um sonho que tive
Não sei se acordado, não sei se a dormir?
Foi todo singelo, foi todo innocente:
Tu córas, sorriste, tens medo d'ouvir?

Não córes, escuta, não fujas de mim,
Que o sonho foi sonho de casta paixão:
Já crês, não duvídas, verás como é lindo
O sonho innocente do meu coração:

Eu via em teus labios um meigo sorriso,
Em tens olhos negros um terno mirar,
Teu seio de neve a arfar docemente,
Sentia nas faces o teu respirar.

E tu não fallavas, mas eu entendia;
E tu não fallavas, mas eu bem ouvi!
Amor! na minh'alma a voz me dizia,
E um beijo na fronte não sei se o senti.

Já vês que o meu sonho foi sonho innocente;
O resto eu te conto; como has de gostar!
É todo singelo, de amores somente;
Verás que ao ouvi-lo não has de córar.

Depois apertando teu corpo flexivel,
Cingindo teu collo no braço a tremer,
Ouvi uma falla, e o que ella dizia
Agora acordado não posso eu dizer.

Não posso contar-t'e, só pude senti-l'a;
Não posso contar-t'a senão a sonhar:
No sonho innocente, no sonho d'amores,
Do qual, duvidosa, julgavas córar.

Não posso contar-t'a, nem sei se acordado
O que ella dizia se póde entender;
Eu sei que sonhando, pensei que era sonho,
E agora acordado a não posso esquecer.

Mas tu porque escondes a face córada?
Não tem nada o sonho que faça córar,
É todo singelo, é todo innocente;
Que importa um abraço, se é dado a sonhar?

Mas tu não te escondas, que eu fico em silencio;
Não quero offender-te a casta isenção;
Não torno a contar-te depois de acordado
O sonho innocente do meu coração.

Raimundo António de Bulhão Pato (1850)

Lágrima de preta

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

António Gedeão - pseudónimo de
(Rómulo Vasco da Gama de Carvalho), nasceu em Lisboa, 24 de Novembro de 1906 e faleceu em Lisboa a 19 de Fevereiro de 1997

14 comentários:

  1. O primeiro poema deve fazer-nos reflectir.
    Muito!!
    Beijocas, boa semana

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    1. Esse poema acompanhou-me sempre e de facto devemos reflectir e muito como dizes.

      Boa semana

      Beijocas e obrigado

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  2. 3 excelentes poemas e muito bem ligados:)
    Beijocas

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    1. São de facto excelentes e ainda bem que gostaste.

      Beijocas e obrigado

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  3. Acabam por ser muito actuais. Belas escolhas.
    Beijinhos

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    1. há que tirar lições de um legado do passado e ainda dizem que a história não se repete? Claro que sim e são ao que eu chamo de "ciclos".

      Beijocas e obrigado

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  4. Só conheço o primeiro e o último, o do meio não conhecia. Admito que poesia já foi uma das minhas paixões, lia tudo o que encontrava pela frente, entretanto não sei o que aconteceu que esfriei um pouco. Talvez volte...

    Tenho alguns livros de Sofia de Mello B.A., que adoro. Uma paixão por Florbela Espanca, dois de Vitorino Nemésio que são extremamente difíceis de ler, e mais autores por ali na estante, um dia destes vou tentar abrir um e ver se o efeito é o mesmo.

    Boa semana, Fatyly.

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    1. Aquando estudante após a 4ª classe, tive uma disciplina de Literatura. Sempre gostei imenso de poesia e tive vários professores, mas um, talvez o único, ensinou-nos a gostar de poesia, prosa poética e até texto e ler, ler, ler. Era o que fazia, mas coitado ele só poderia dar os "autores" permitidos por Salazar e mesmo assim muitos poemas foram riscados pelo famoso "lápis azul". Empinávamos aquilo, tal como a tabuada "cantada" em que muitos sabiam a música mas a letra era difícil:):) Outros tempos!
      Por essa razão hoje são poucos os poemas que releio de Luís de Camões, Fernando Pessoa, Júlio Dinis, etc, etc. No final do curso comercial tive exame de Literatura. Nunca mais esqueci, 6 folhas (portanto de 12 páginas), para duas horas e meia. Saí toda feliz com a certeza que teria uma boa nota. Mas na pergunta que valia mais segundo os critérios de então, no raio do poema de Luis de Camões troquei a Leonor por Luisa, riscaram todo o exame e tive como nota final um ZERO e consequente chumbo sem direito a protesto.
      Andei mais um ano só com literatura.
      Sempre detestei a obra de Florbela Espanca, embora tenha um ou dois poema que gosto...mas para além de serem tão tristes eram chatos como a potassa. Disse isso ao meu professor e sobre Fernando Pessoa também lhe disse que deveria ter sido um homem imensamente negativo, doente:):):)

      Mas eu e alguns colegas conseguimos ler às escondidas e bem escondidos poemas que eram proibidos, como os poemas eróticos do Bocage. Este Bulhão Pato também tem uns divertidos. Sabíamos o risco, mas como adolescentes e ou jovens queríamos saber mais e ainda hoje dou enorme razão ao ditado popular: o fruto proibido é o mais desejado.

      Tal como o ensino actual...há que ter uma ideia de poetas da nossa história, mas no que toca aos poetas e escritores mais recentes são sempre os mesmos. Que seca!

      Não sei quem é que faz a selecção dos manuais escolares que mudam como o vento e fico espantada como são e o que contêm em todas as disciplinas.

      Enfim...gosto de todos, mas de todos um pouco e não consigo dizer qual deles gosto mais.

      Beijocas e obrigado

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    2. É difícil não gostar de Pessoa. É O grande entre outros grandes (se é que me é permitido falar assim) nisto da poesia.

      Florbela Espanca é uma das minhas paixões. Aprendi a interpretar, li toda a sua história de vida e, foi aí, que se deu o clic, passei a entender o sofrimento, a dor, que passava através do que escrevia. Os sonetos de Florbela Espanca são qualquer coisa de muito bom. O "se tu viesses ver-me..." foi pintado por mim (pintado em forma de letras) e encontra-se numa moldura na minha mesa de cabeceira.

      Devo-lhe dizer que no meu tempo de estudante nunca "empinei" nada. Ensinaram-me a estudar, e esse ensinar foi feito por um professor de matemática que os meus pais resolveram contratar porque as minhas notas a matemática eram sempre uma lástima. Foi com ele que aprendi a perceber a matemática, foi a partir daí que me tornei uma aluna bastante razoável nessa disciplina. Afinal a matemática não era nada difícil, era só uma questão de a entender. Ou seja, o medo dos exames que tinha até aí, desapareceu. Lá está, o problema não é dos exames, o problema talvez seja outro.

      Também tive sorte com os professores do Cambridge, onde me formei a Inglês e Alemão. Professores duros, que não queriam gente que apenas estudasse para os exames, mas gente que soubesse ler, escrever e pronunciasse correctamente a língua. Ou seja, não nos era permitido dizer algo sem que a pronúncia não estivesse correcta. A obrigação de ler em voz alta à frente de todos, era lei. Acho que tive sorte nisto dos professores que fui encontrando ao longo da minha vida. Existiu um de filosofia que jamais vou esquecer, tinha um ar de quem só tomava banho de ano a ano, mas foi dos melhores professores que encontrei em toda a minha vida.

      Beijinho, Fatyly, tenha uma boa noite :)

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    3. É difícil de não gostar de Pessoa então eu sou mesmo uma excepção, porque hoje releio pouca coisa dele.Tive um professor de Literatura que era excelente e muito exigente, mas declamar poemas em plena aula não era fácil, tinhamos mesmo de decorar. Gostava e gosto mais de Eça de Queirós.

      Na época eu tive professores que "ensinavam e ajudavam muito" uma mais valia, mas tive uma professora de português que era uma nódoa. Valeu-me a ajuda de colegas mais velhos e sobretudo professores a quem pedia ajuda nos intervalos. Nunca tive explicadores porque os meus pais não podiam pagar. Toda a matéria das várias disciplinas eram mesmo empinadas/decoradas até à exaustão o que me fez nunca esquecer. Hoje há disciplinas em que abrir os manuais a coisa é tão reduzida que mete dó. Falo apenas do ensino básico e secundário. Universitário, pois há quem se interesse muito por "tudo", mas alguns, para não dizer bastantes alunos só se interessam pela matéria do seu curso... e por vezes no básico engasgam-se e sobretudo porque não têm o hábito da leitura. Julgo eu!

      Beijocas e obrigado

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  5. É impressão minha ou o Bulhão Pato não acentuava bem certas palavras? :O

    Eu sou poeta nas horas vagas, mas confesso que não sou muito de ler poesia. Portanto a partir daí já dá para se aperceberem que eu não me baseio na escrita de ninguém nem preciso de ir buscar influências a lado nenhum. :P

    Beijinhos e bom feriado.

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  6. Era a escrita da época. Foi revista em 1950.

    Tens poemas fantásticos e acho que deverias continuar:)

    Beijocas e obrigado

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