domingo, 29 de novembro de 2009

Todos podemos e conseguimos!













Sentei-me num banco de jardim, local onde por vezes ia no intervalo do almoço, para apreciar quem passava e como passavam e assim espairecer um pouco. Começou a chover e não me apeteceu sair, porque a chuva não me incomoda nada! Sinto que alguém se sentou no mesmo banco e olho. Com os cotovelos em cima dos joelhos amparava o seu rosto. Perfil angustiado semi encoberto pelo carapuço. Novo? Velho? não reparei e oiço uma voz fraca "estou farto da vida e hoje será a última vez que aqui venho". Como? e virou-se para mim. Foi então que reparei num rosto tão marcado pelo sofrimento. Sim, minha senhora, hoje vou acabar com a minha vida. Para e porquê? Porque estou farto de roubar-droga-roubar-droga, destrui a minha vida e a vida dos meus. Pois é, mas parou aqui a pensar nisso e porquê? Não lhe sei dizer, mas esteja descansada que não lhe irei roubar nada. Oh rapaz, também estavas lixado, não tenho nada porque sempre que aqui venho nunca trago nada. Depois mete-me muita confusão a vossa filosofia de vida, se sabias que o caminho é quase sempre sem retorno, porque te meteste nessa porcaria? Consegues dizer-me, mas antes pensa bem. Sim...sim...porque fui um puto rodeado de tudo que era o "sonho de uma criança", mas faltou-me o essencial, amor e carinho. Calma aí! Será? Se tinhas tudo foste para as drogas para procurar o que tinhas dentro de ti e que não soubeste dar e nem receber? O amor? Encolheu os ombros. Hoje já és um homem e não será tempo de pensares e reconquistar a tua auto-estima e depois os dos outros? Oh o meu pai bem tenta, mas eu não quero nada com ele. Não queres? Não, tenho vergonha. Olha que estás muito a tempo de te tratares se for essa a tua vontade. Não, já tentei e não consegui, hoje será o último dia da minha vida. Se é essa a tua vontade então faz, porque não és tu a falar. Não? e riu-se! Claro que não, são os produtos químicos que domaram o teu sentir. Se o teu pai aparecesse aqui o que farias? Fugia! Achas que fugir da realidade e de quem te ama é a melhor via? Não! Porra lá vem ele. Vejo um carro a parar em frente. Estás a tempo, foge mas digo-te que tenho pena de que além de seres um jovem és um jovem bonito e como sou mãe, sei bem o que o teu pai deve sentir. Olha ele está a sair do carro e vem para aqui.
A senhora é Deus? não é que eu acredite nele, mas engraçado que neste momento já não tenho vontade de me matar e muito menos de fugir. Eu? Deus? se fosse Deus garanto-te que nem sequer tinhas entrado...Boa tarde, então filho? queres ouvir-me? vem comigo sem vergonha porque todos te amamos e só queremos o melhor para ti. Aceitas?
Aquelas palavras ditas com os olhos marejados de lágrimas doeram-me tanto.
Olhou para mim, piscou-me o olho e disse OBRIGADO!
Sim pai vou, e num choro compulsivo, ajuda-me pai por favor e o abraço foi o maior e mais bonito que vi!

Isto ocorreu há uns anos e vezes sem conta lembrava-me daquele rosto, o que seria feito dele?

No início deste ano quando ia dar sangue. Desculpe, lembra-se de mim? Sinceramente não, deve estar a confundir-me com outra pessoa. Impossível, lembra-se daquele "malandro" com quem conversou no banco do jardim? Fiquei sem palavras...Sabe, casei-me (apresentou-me a mulher) e já tenho este filhote e uma menina com 5 anos. Os meus pais e amigos foram o meu "ombro amigo", infelizmente a minha mãe faleceu. Deixei "aquele mundo" a partir do dia em que conversei consigo. Compreendo que muita gente foge dos "malandros" pelo que fazemos!
Oh rapaz, fico tão feliz, mas eu não fiz nada! A obra foi da tua própria vontade em saíres e acreditar de novo na vida ou então da chuvada que apanhámos e que te lavou a alma.
Fez muito, não fugiu de mim e hoje tenho a honra de dizer, ou melhor pedir o que há anos seria impensável: aceita um café? Claro!

Se conseguir ajudar (e há tantas formas de o fazer) nem que seja uma só pessoa, já me considero muito feliz!

Já agora e caso queiras assina a petição on-line por uma "boa causa" feita pela Odele e que está na barra lateral!

OBRIGADO POR TERES LIDO TUDO

11 comentários:

  1. há pessoas que batem no fundo e conseguem emergir. Nem todos são capazes de subir até à tona da água! Só os fortes, só os que tªê,m estrutura familiar ou simplesente attude. Por vezes basta uma palavra , uma expressão, não é necessário grandes conversas para libertar alguém das malhas da droga. Felizes os que se salvam. E ninguém está livre de cair nesse poço ou de ter alguém muito chegado nessa trama. Benditos os que escutam como tu escutaste. Porque o silencio também faz ruido e som. kisses

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  2. Infelizmente há muita gente que não consegue sair dessa porcaria das drogas.
    O que fizeste ao ouvir esse jovem, foi sublime!:)
    Beijocas

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  3. Há dias de inspiração!
    ;)
    E de encontros!

    Bem hajam os encontros!

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  4. Avogi
    tens toda a razão e há tantos "discursos e falsos moralismos". As célebres lições de moral nunca funcionam perante esta desgraça e só consegue sair dela se houver vontade própria. O resto? é pura utopia!

    Wind
    tal e qual e além de não sairem dessa porcaria, arrastam e arrasam familiares e amigos.
    Este caso tocou-me muito e quando oiço alguns pais (que pena que me dão) que se vêm a braços com este flagelo, que dão tudo e sobretudo "a darem lições de moral", estas não funcionam. Funciona mais um pulso de ferro, ou seja os pais e familiares também têm que se cuidar e entregues a si próprios e a xafurdarem, alguns conseguem, poucos mas têm retorno.

    Boop
    Aconteceu e por ter aqui na minha zona, casos tão terríveis e andei com alguns ao colo e só dois sairam dessa porcaria, como dizem "não estão curados porque ao pequeno deslise retornam" e em ambos os casos os pais puseram freio às coisas que eles lhes faziam só quem vive perto é que sabe e desapareceram até ao dia em que por vontade própria pediram ajuda. Meu Deus como doia e dói o sofrimento dos pais e no fundo deles também!!!!
    A este jovem eu nada disse, talvez por ter voz de general e não pôr paninhos quentes na conversa e muito menos trata-lo como "coitadinho" a coisa deu para o certo, mas andei anos a pensar neste jovem e em outros tantos que vagueavam pela baixa Lisboeta!

    Beijocas e obrigado

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  5. Há histórias de vida sublimes, Mãezona.
    Esta é lindíssima!
    Imagino a alegria daquele rapaz, e, imagino, a tua satisfação, ao vê-lo, ao fim deste tempo todo. Tão doce, já viste?
    Tu guardaste aquele momento na memória, mas ele, ele, não mais te esqueceu e ao fim deste tempo todo, vão encontrar-se...
    Admirável a força dele e, as tuas palavras tão doces,mas firmes, na hora certa, no momento exacto.
    Foi a sintonia perfeita!
    Bem hajas, meu Doce.
    Que bom seria se o diálogo existisse, pois que, em muitos casos, o que leva a que os jovens caiam na droga é o afastamento, é a falta de diálogo com os pais.
    É evidente que a força de vontade tem que ser grande, grande, mas, é preciso saber ouvir, dialogar, acompanhar, criar pontes de união, e, jamais levantar muros de lamentações e se houver um trambolhão, estar lá para ajudar a erguer-se de novo, tantas as vezes quantas as que forem precisas, mas estar MESMO!

    Um beijo enorme, Mãezona *****

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  6. Marta
    precisamente e o que relatei foi precisamente numa pausa da "doideira" do meu trabalho em que tudo era para ontem:) Ainda falam do stress de hoje? Há que haver organização e saber fazer uma pausa...para nos ouvirmos e ouvir os outros!

    Cris
    Naquele jardim havia tantos e tantas, autênticos putos e até dava dó!
    Nunca falei com eles numa de "coitadinho" e este moço ficou-me na memória talvez por ter tido o encontro com o pai, porque falam que os pais isto e mais aquilo mas são tantos disparates que fazem que o suporte paternal desaparece. É o que vejo nos casos que tenho por aqui, uns em recuperação e outros na trampa e meu deus, como os pais sofrem tanto.
    A meu ver só é ajudado quem quer e no caso que relatei foi uma coincidência e quando passados anos o vi, não o reconheci.
    Enfim!

    Beijocas e obrigado

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  7. Querida Fatyly

    Que bela história de vida e que bonita partilha.

    Nestes caminhos que percorremos sempre encontramos situações desesperadas como a que nos descreves... mas é gratificante quando um pequeno gesto produz resultados tão profundos.

    Emocionei-me sem dúvida com tão bela leitura.

    Beijinhos.

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  8. Vicktor
    e são de facto pequenos gestos que sempre preencheram a minha vida e talvez por ser um pouco "dura"(não é bem este termo masnão me ocorre o real) na forma como me expresso em algumas coisas que fazem um efeito gratificante.
    Quando ocorreu este diálogo com aquele jovem, nunca pensei que tinha feito tanto como ele disse e é nisto que todos nós devemos apostar. Discursos, lições de moral, opiniões inclusivé os televisivos...em nada resultam e pelo contrário, o jornalismo e debates que temos vindo a assistir provoca um cenário ainda mais dantesco e apercebo-me do "medo e gelo" que se vai instalando.
    Como é óbvio debaixo de drogas tem ocorrido o que se sabe e o que dizer a quem sofre na pele tamanhas barbaridades? É um pau de dois bicos!

    Ocorreu agora mais um crime hediondo e o que merecia aquele gajo que fez o que fez com toda a certeza debaixo de quimicos e por ser um tipo que há muito deveria estar em tratamento exaustivo! Quantos andam por aí? Quantos não haverão que a mando de outros praticam assaltos e não só? Onde estavam as apregoadas associações de apoio à vitima de violência sobretudo com filhos menores? Onde estava a sociedade civil que só se mobilizou para gritar "assassino" à porta do tribunal?

    Enfim...tudo isto dá que pensar e muito e vezes sem conta penso à beira mar e em bancos de jardim onde aprecio o passar e como passam as pessoas!

    Beijocas e obrigado

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  9. Olá amiga .
    Sim li tudo e digo-te . __ Obrigado por este escrito,seja ele em forma de crónica , conto , sei lá . Sei que me tocou muito.
    Sim , é verdade que podemos fazer muito. Principalmente ouvir. Eles os tais , ouvem e abrem-se mais com alguns amigos , conhecidos , e por incrível que pareça até com estranhos! Tive longas conversas com um rapaz , que vi crescer e consegui , sei que fui muito útil. Com outro , mais velho , mais ou menos da minha idade , até consegui que se deixasse internar e eu próprio o levei no meu carro . Coisa muito admirada pela família , porque não era ouvida.
    Fica bem , um abraço

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  10. Carva55
    Histórias veridicas que nos tocam e se todos fizessem um pouco o mundo seria bem melhor. Parabéns rapaz e de ti não esperava outra coisa:)

    Beijocas e obrigado

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