sexta-feira, 14 de novembro de 2014

ANTÓNIO ALEIXO




Co'o mundo pouco te importas
porque julgas ver direito.
Como há-de ver coisas tortas
quem só vê o seu proveito?

De vender a sorte grande,
confesso, não tenho pena;
que a roda ande ou desande
eu tenho sempre a pequena.

És feliz, vives na alta
e eu de ratos como a cobra.
Porquê? Porque tens de sobra
o pão que a tantos faz falta.

Quem nada tem, nada come;
e ao pé de quem tem comer,
se disser que tem fome,
comete um crime, sem querer.

Eu não tenho vistas largas
nem grande sabedoria,
mas dão-me as horas amargas
Lições de Filosofia.

Uma mosca sem valor
poisa c’o a mesma alegria
na careca de um doutor
como em qualquer porcaria.

Que importa perder a vida
em luta contra a traição,
se a razão, mesmo vencida
não deixa de ser Razão.

Embora os meus olhos sejam
os mais pequenos do Mundo,
o que importa é que eles vejam
o que os homens são no fundo.

António Aleixo

14 comentários:

  1. Tão bom,tão verdadeiro e tão pertinente.
    Kis :=)
    BFSemana

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    1. Quadras soltas de um homem que na sua humildade dizia tanto!

      Beijocas e obrigado

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    1. Foi sim senhor...e não me canso de o ler!

      beijocas e obrigado

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  3. Um Grande Poeta!
    E com muitas, muitas verdades!
    Beijocas

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    1. Tal e qual e passam os anos...e nada muda, chiça!!!

      Beijocas e obrigado

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  4. Ainda haverá Homens destes, com esta clarividência e humanidade?
    Olhamos à nossa volta e só vemos podridão, gente sem escrúpulos, gente que de gente não tem nada.
    Bom fim-de-semana.
    Bjs

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    1. Claro que há homens e mulheres com esta "clarividência e humanidade" só que não entram em esquemas de manhosos a tal gente a que te referes.

      Bom fim de semana

      Beijocas e obrigado

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  5. Peço desculpa por entrar sem ser convidada :), mas chamou-me a atenção o nome do blog. Fez-me lembrar um blog antigo, de nome Cubata... Mas isso é outra conversa.
    Já que estava cá... aproveitei para dar uma olhadinha, e gostei do que vi.
    Vou fazer-me seguidora para não te perder o rumo...

    António Aleixo, o grande poeta popular português, dizia grandes verdades que ainda hoje (talvez, até, "sobretudo hoje"...) continuam actuais.
    Tenho, dele, dois livros - INTENCIONAIS e ESTE LIVRO QUE VOS DEIXO.
    De vez em quando abro e leio... serve de desabafo :)

    Se me quiseres visitar... terei muito prazer.

    Bom fim de semana.
    Beijinhos
    Mariazita

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    1. Não tens que pedir desculpa:) não há portas nesta Cubata. Sim tive outro blog e paira por aí mas perdi o acesso quando o meu pc deu o berro e com isso esqueci por completo as passes, mas não era apenas "Cubata" e como tal, entra e está à vontade.

      Também tenho o segundo livro que referes e volta e meia vou lendo porque gosto muito.

      Bom fim de semana

      Beijocas e obrigado

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  6. Fatyly, se eu lhe dissesse onde é que mais li este verso nos meus tempos de estudante, não iria acreditar. Portanto é melhor ficar para aqui caladita :D

    "Uma mosca sem valor
    poisa c’o a mesma alegria
    na careca de um doutor
    como em qualquer porcaria."

    Tenha um excelente fim-de-semana :)

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    1. Caladita eu nunca fiquei:):) e claro que algumas destas quadras, assim como a parte da literatura do Bocage por exemplo, eram proibidas no tempo da ditadura. Imagino...talvez nas praxes que estão bem longe do exagero e imbecilidade das actuais!!!

      Mas eu lia tudo às escondidas e o meu grupo obtinha "tudo que era proibido em termos de literatura, através de amigos fora de Angola" e para tal era com cada esquema jasussss...se a PIDE descobrisse lá íamos todos parar à pildra.

      Sempre gostei muito de ler e naquela época na disciplina de Literatura, eu tive um excelente professor que nos fez gostar imenso de poesia e prosa poética. Claro que enjoei alguns ícones como Fernando Pessoa e Camões e graças a este levei um 0 no último exame de 10 folhas e tive de andar um ano com a dita. Sabes porque levei? Apenas por me ter enganado em vez da Leonor eu escrevi Luísa.
      Sempre tive inserida numa turma mista (havia apenas uma com os que não davam para formar uma única turma) e só nos juntávamos na sala, porque de resto era tudo em separado. Eu, EU????? como chefe das raparigas e um colega dos rapazes. Os mais rebeldes, defensores dos fracos e oprimidos, e imagina a recitarmos em voz bem alta um verso, ou quadra e a todos eles acrescentávamos baixinho de "cú para cima e no outro de cú para baixo"
      Exemplo:
      "Uma mosca sem valor de cú para cima
      poisa c’o a mesma alegria de cú para baixo
      na careca de um doutor de cú para cima
      como em qualquer porcaria." de cú para baixo

      e o pobre do senhor dizia: leiam de seguida, não façam pausa porque não há pontuação para tal. Nunca deu por nada, tadinho!!!!

      Enfim...coisas próprias da adolescência...mas longe da falta de educação que hoje graça nas escolas!!!

      Beijocas e obrigado



      Uma mosca sem valor


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  7. Lá está, todos nós, quer tenhamos muito ou pouco, sofreremos o mesmo terrível destino: a morte. E quando morrermos, não levaremos nada connosco.

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    1. Ora pois claro isso é a certeza que todos temos!

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