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sábado, 14 de março de 2026

Luis Fernando Veríssimo

Acho a maior graça. Tomate previne isso, cebola previne aquilo, chocolate faz bem, chocolate faz mal, um cálice diário de vinho não tem problema, qualquer gole de álcool é nocivo, tome água em abundância, mas não exagere... Diante desta profusão de descobertas, acho mais seguro não mudar de hábitos. Sei direitinho o que faz bem e o que faz mal pra minha saúde. Prazer faz muito bem. Dormir me deixa 0 km. Ler um bom livro faz-me sentir novo em folha. Viajar me deixa tenso antes de embarcar, mas depois rejuvenesço uns cinco anos. Viagens aéreas não me incham as pernas; incham-me o cérebro, volto cheio de idéias. Brigar me provoca arritmia cardíaca. Ver pessoas tendo acessos de estupidez me embrulha o estômago. Testemunhar gente jogando lata de cerveja pela janela do carro me faz perder toda a fé no ser humano. E telejornais... os médicos deveriam proibir - como doem! Caminhar faz bem, dançar faz bem, ficar em silêncio quando uma discussão está pegando fogo, faz muito bem! Você exercita o autocontrole e ainda acorda no outro dia sem se sentir arrependido de nada. Acordar de manhã arrependido do que disse ou do que fez ontem à noite é prejudicial à saúde! E passar o resto do dia sem coragem para pedir desculpas, pior ainda! Não pedir perdão pelas nossas mancadas dá câncer, não há tomate ou mussarela que previna. Ir ao cinema, conseguir um lugar central nas fileiras do fundo, não ter ninguém atrapalhando sua visão, nenhum celular tocando e o filme ser espetacular, uau! Cinema é melhor pra saúde do que pipoca! Conversa é melhor do que piada. Exercício é melhor do que cirurgia. Humor é melhor do que rancor. Amigos são melhores do que gente influente. Economia é melhor do que dívida. Pergunta é melhor do que dúvida. Sonhar é melhor do que nada! Luís Fernando Veríssimo

terça-feira, 3 de março de 2026

SEM TITULO

Já fui árvore altaneira, De fundas raízes, frondosa. Já dei sombra, dei madeira, Consideraram-me a mais formosa. Mas veio um vento de Norte Um temporal negro, medonho Que me sacudiu tão forte, E me torceu num remoinho, Fazendo que visse o fim, anunciando a morte. Hoje, jazo nesta margem. Já sou só um tronco aberto. Apodrecendo pouco-a-pouco. E vou assistindo à passagem, Deste tempo "encoberto", Destas águas e deste povo.
Postado por Bartolomeu

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Que saudades do chifrudo!

Manuel Pinho, virou-se para a bancada comunista com os dedos a imitar os chifres de um boi cornudo. Foi o bom e o bonito. Um escândalo nacional e internacional, primeiras páginas de jornais, aberturas de telejornais durante dias a fio, pedidos de inquérito, fóruns e até sermões de bispos em entrevistas que vexavam uma classe política caída em desgraça. O ministro que viria a provar ser um traste, passara a ser, aos olhos da opinião pública, um tipo rasca, um troglodita, o exemplo da falência dos costumes - como é que alguém se poderia atrever a ter um comportamento tão deplorável em plena Assembleia da República? Passaram apenas 16 anos, foi ontem ou anteontem. Se Pinho era uma besta das cavernas, como definir o que se tem passado naquela que um dia foi a casa da democracia? E como se explica ter tudo acontecido em tão pouco tempo? Alguém que faça hoje uns cornos ou desenhe pilinhas passa por fanático de Teresa de Calcutá... ninguém lhe prestará atenção. Será certamente submerso pelos que insultam cegos e paralíticos, pelos que gozam com mulheres "gordas", pelos que ridicularizam "maricas" e "fufas", pelos que dizem que uma deputada deve ir para a sua terra por ser "preta". Passaram 16 anos e sinto-me envergonhado por este país e pelas pessoas que, tendo votado num grupo de gente do mais rasca que há, se sentem bem representadas. Porque será? LUIS OSÓRIO NO JN

sexta-feira, 3 de maio de 2024

LUÍS FERNANDO VERISSIMO- O HOMEM TROCADO

O homem acorda da anestesia e olha em volta. Ainda está na sala de recuperação. Há uma enfermeira do seu lado. Ele pergunta se foi tudo bem.

– Tudo perfeito – diz a enfermeira, sorrindo.

– Eu estava com medo desta operação…

– Por quê? Não havia risco nenhum.

– Comigo, sempre há risco. Minha vida tem sido uma série de enganos… E conta que os enganos começaram com seu nascimento.

Houve uma troca de bebês no berçário e ele foi criado até os dez anos por um casal de orientais, que nunca entenderam o fato de terem um filho claro com olhos redondos. Descoberto o erro, ele fora viver com seus verdadeiros pais. Ou com sua verdadeira mãe, pois o pai abandonara a mulher depois que esta não soubera explicar o nascimento de um bebê chinês.

– E o meu nome? Outro engano.

– Seu nome não é Lírio?

– Era para ser Lauro. Se enganaram no cartório e… Os enganos se sucediam.

Na escola, vivia recebendo castigo pelo que não fazia. Fizera o vestibular com sucesso, mas não conseguira entrar na universidade. O computador se enganara, seu nome não apareceu na lista.

– Há anos que a minha conta do telefone vem com cifras incríveis. No mês passado tive que pagar mais de R$ 3 mil.

– O senhor não faz chamadas interurbanas?

– Eu não tenho telefone!

Conhecera sua mulher por engano. Ela o confundira com outro. Não foram felizes.

– Por quê?

– Ela me enganava.

Fora preso por engano. Várias vezes. Recebia intimações para pagar dívidas que não fazia. Até tivera uma breve, louca alegria, quando ouvira o médico dizer: – O senhor está desenganado. Mas também fora um engano do médico. Não era tão grave assim. Uma simples apendicite.

– Se você diz que a operação foi bem…

A enfermeira parou de sorrir.

– Apendicite? – perguntou, hesitante.

– É. A operação era para tirar o apêndice.

– Não era para trocar de sexo?

quinta-feira, 31 de março de 2022

Esta guerra vai pôr fim à era de Putin-- UMA ENTREVISTA A JOSÉ MILHAZES


 







Desde que a Guerra na Ucrânia começou, José Milhazes tem sido uma presença constante nos ecrãs de televisão. O português que viveu 38 anos na Rússia, onde estudou e se casou, conhece como ninguém aquele país e o modo próprio de ser russo. Também conhece a maneira especial como se lidera, tão geneticamente comprometida com autoritarismos czaristas. José Milhazes considera que esta guerra porá fim à era de Putin e aponta as quatro alternativas que deitarão ao chão o homem que a Europa e o Mundo mais temem neste momento.

 Catarina G. Barosa | Fotos: DR

Tendo vivido tantos anos na Rússia, tendo estudado na Rússia, tendo feito a maior parte da sua vida na Rússia, conseguiu identificar algum modo próprio de ser líder naquele país?

Ser líder naquele país obedece ao princípio ou à fórmula “quero, posso e mando” e, se possível, com o menor controlo que possa existir, ou seja, a liderança é muito pessoal. A liderança na Rússia faz muito lembrar o feudalismo; temos o suserano e temos os súbditos. Então, o suserano concede aos súbditos direitos, consoante a sua fidelidade, e isto foi e continua a ser uma constante da história da Rússia.

Mas há exceções?

Claro, há pequenas exceções. Há o caso de Mirkhail Gorbatchev, que tentou destruir este sistema, embora também sofresse um pouco de tentar centralizar nele próprio o poder. Por exemplo, um dos erros que ele cometeu foi, em vez de fazer com que o Parlamento o elegesse Presidente da União Soviética, deveria ter feito isso em eleições gerais, ou seja, legitimar-se através das eleições. Ele receou que não havia condições para que a maioria das pessoas o apoiasse. Agora, todos os outros dirigentes foram autoritários, mesmo olhando para Boris Yeltsin, foi também um dirigente tipicamente autoritário: é ele que manda, que dá ordens, que demite, que nomeia, que faz o que quer. Embora no caso dele com uma certa cobertura democrática, mas, nós vemos por exemplo que, quando entra em confronto com o parlamento russo em 1993, em setembro, acaba por bombardear o parlamento, ou seja, isto é um Presidente que foi democraticamente eleito e que se considerava um grande democrata.

Parece que há uma genética autoritária?

Exatamente, e que eu penso ter origem na política bizantina. É uma política muito concentrada na corte, à volta do tal suserano, do czar, onde não existe sociedade civil.

Apesar de o povo russo ser muito fiel ao ser líder, porque há essa tradição da fidelidade, como identificou e muito bem, é um facto que também há muitos momentos de insurreição na história da Rússia, também se mataram czares, por exemplo.

Isso é um dos mitos muito divulgados da história da Rússia, mas, se formos ver ponto por ponto, percebemos que não é assim. Por exemplo, Pedro III, marido de Catarina II, foi assassinado num golpe de estado dentro da corte. Paulo I, filho de Catarina II, foi assassinado também durante um golpe palaciano, ou seja, aqui não há massas populares, nem revoltas.

Depois temos outro fenómeno que é muito próprio já do século XIX, que é o terrorismo político na Rússia: Alexandre II, talvez um dos mais competentes czares na história da Rússia, o homem que libertou os camponeses da servidão da gleba, acabou por morrer à 12.a tentativa de assassinato por terroristas populistas; Alexandre III, que lhe sucedeu, teve o mesmo destino; Nicolau II, o último, foi derrubado por um levantamento popular provocado, entre outras coisas, pela campanha desastrosa na Primeira Guerra Mundial.

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quinta-feira, 28 de outubro de 2021

PROVÉRBIOS PORTUGUESES

 

  1. Amigos, amigos, negócios à parte
  2. Um olho no peixe, outro no gato
  3. Deus tem mais para dar do que o diabo para tirar
  4. O seguro morreu de velho
  5. O preguiçoso trabalha dobrado
  6. Quem não quer ser lobo não lhe vista a pele
  7. Em terra de cego quem tem um olho é rei
  8. Um dia da caça, outro do caçador
  9. Não adianta chorar sobre leite derramado
  10. Águas passadas não movem moinho
  11. O pior cego é aquele que não quer ver
  12. Apressado come cru
  13. Plantar verde para colher maduro
  14. Quem ri por último, ri melhor
  15. Filhos criados, trabalhos dobrados
  16. À noite, todos os gatos são pardos
  17. Depois da batalha aparecem os valentes
  18. Não adianta lamentar a morte da bezerra
  19. Deus ajuda quem cedo madruga
  20. Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher
  21. Quem bate esquece; quem apanha, não
  22. A esperança é a última que morre
  23. De boas intenções o inferno está cheio
  24. Em casa de ferreiro o espeto é de pau
  25. Quando um não quer, dois não brigam
  26. Os últimos serão os primeiros
  27. Se ferradura trouxesse sorte, burro não puxava carroça
  28. Manda quem pode, obedece quem tem juízo
  29. Pau que nasce torto nunca se endireita
  30. O homem é senhor do que pensa e escravo do que fala

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

21 de Junho de António Lobo Antunes









 

Almoço com a minha filha mais velha, pelos seus anos, num dos restaurantezinhos próximos do sítio onde escrevo. De vez em quando o telemóvel dela toca e parabéns, parabéns, aqueles que não consigo dar-lhe porque no dia do nascimento estava a dez mil quilómetros de distância. Não perdoo quase nada à Ditadura e o que menos lhe perdoo foi não ter assistido à gravidez da mãe e não estar presente quando chegou. Soube da sua vinda ao chamarem-me à barraca da rádio, por uma mensagem de Luanda, no dia seguinte, e apenas uma ou duas semanas depois chegaram fotografias pouco nítidas, enovoadas pelas minhas lágrimas de emoção e raiva. Uma filha fantasma em que não podia tocar, não podia ter ao colo, não podia beijar. Lembro-me de ter ido para junto do arame farpado, sozinho, num sofrimento imenso, e diante de mim, o rio, a mata, a infinita paisagem da minha dor. Conheci-a com quatro meses, deitada no berço a dormir, inclinei-me para ela e continuo, ainda hoje, a sentir o seu cheiro, a ver as suas mãos, o seu corpo, o seu cabelo loiro, os pezinhos que me cabiam inteiros na boca. Conheci-a com quatro meses, exausto da guerra, e dali a pouco fui-me embora outra vez. Cada 21 de Junho, ao olhá-la, vem-me à cabeça, como num vómito instântaneo, o que acabo de escrever. Fico muito quieto à frente dela no restaurante, tenha a idade que tiver, com os seus pés na minha boca e o seu cheiro a embuchar-me. Quis tanto que viesse: pensava - Vou morrer aqui - pensava - Se tiver um filho ainda que morra não morro - e desde então é a certeza da minha imortalidade e da minha permanência. Mesmo hoje, passadas mil luas, dou por mim não com ela, no Chiúme (o sítio miserável onde então apodrecia) a pensar

- Tenho uma filha, tenho uma filha e não tinha fosse o que fosse a não ser as letras do rádio e fotografias a preto e branco num quarto de maternidade, que não parava de olhar na esperança que o bebé começasse a mexer-se, a sorrir, a existir de facto, a acordar ao meu colo. Toda a guerra é horrível: os mortos, os feridos, o isolamento, a estupidez cruel, as nossas existências precárias e indignadas. Mas, maior que isso, o nascimento da minha filha foi o que mais me custou pela violência dos sentimentos contraditórios que acendeu em mim, pela dúvida – Será verdade, não será verdade? E pela minha furiosa, quase assassina indignação. A minha mãe nasceu quando o pai dela na guerra também, em França, de onde voltou (tenho o seu diário) gaseado e desfeito. Porém uma coisa era saber isto e outra coisa vivê-lo. Se Deus me fizesse o favor de voltar com os ponteiros para trás, agradecia: nada se pode comparar, julgo eu, a estar presente na altura em que uma criança nossa (em que uma criança minha) rompe no mundo. Por isso o dia 21 de Junho (21 de Junho, São Luis Gonzaga, Confessor) é uma data estranha que nunca se pacifica cá dentro. Volto a África (não é a sensação de voltar a África, é de não ter saído de lá) estou em África e um soldado vem chamar-me à barraca da rádio. O cripto entrega-me um papel – Rapariga – e eu de papel em riste, aparvalhado, incrédulo, com o coração num pingo. Como esta expressão é verdadeira: o coração num pingo. Não é uma imagem nem uma metáfora: o coração num pingo. De forma que na semana passada, no restaurantezinho perto do sítio onde escrevo, o coração num pingo. Não posso meter os seus pés na minha boca (cresceram imenso) e a minha dificuldade em exprimir ternura impede-me de a abraçar como desejaria. Para ali fico, aparvalhado: parece uma mulher e mentira: é o bebé que me roubaram, é a alegria que recusaram dar-me. É o meu bebé e o meu bebé come de faca e garfo, atende o telemóvel, cresceu inacreditavelmente depressa para a ter no colo. Comemos cerejas do mesmo prato, falamos disto e daquilo e nenhum de nós fala coisa que se veja. O facto de comermos cerejas do mesmo prato comove-me. De vez em quando os nossos dedos roçam-se, apetece-me apertar-lhos e não os aperto: estou de papel em riste a ler – Rapariga - a ler - Rapariga – diante do silêncio dos soldados, do silêncio da mata, do silêncio de Angola. Sou um pingo farpado, uma gotinha que vibra. Sou um alfereszito de vinte e tal anos a tremer contra o arame farpado. Um camarada meu aproximou-se: o Eleutério. Gostava, gosto do Eleutério. Regressava sempre da mata num molho de brócolos, com o pelotão atrás. O Eleutério chegou ao meu lado e ficou ao meu lado. Nenhum de nós disse nada. E, apesar disso, que conversa comprida, cheia de fúria e alma em tiras, naquele silêncio. Agradeço-te, Eleutério, o que trocámos sem palavras. O capitão para mim: - Parabéns, parabéns - e compreendi nesse momento que a resposta possível a – Parabéns, parabéns
era a cabeça voltada para o outro lado e a exclamação
- Caralho
tão baixinho que o mundo inteiro ouviu!


CRÓNICA de António Lobo Antunes
In Visão nº. 748 de 5 de Julho de 2007

domingo, 25 de abril de 2021

Maria José Morgado defende tribunais especializados e sentenças negociadas








Em entrevista à TSF e ao JN, a procuradora-geral jubilada argumentou que “não há na magistratura judicial a especialização necessária em sede de julgamento” e apontou que “o juiz que recebe os processos de criminalidade económica e financeira é o mesmo que julga roubos e homicídios, e terá de fazer um esforço imenso de adaptação e assimilação do tipo de prova específica, tendo de aprender isso do nada”.

Continuar a ler aqui no SAPO24

 

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

sábado, 4 de maio de 2019

PAIS SEM PRESSA de PEDRO STRECHT



Porque sou filha, mãe, sogra e avó (mãe duas vezes) este livro desbloqueou certas portas que estavam fechadas neste mundo tão frenético onde muitos falham o básico, tão básico e que há tempo sim senhor para equilibrarem a balança da vida.

Já tinha lido outros livros deste autor, mas a simplicidade desta narrativa é excelente e fui lendo aos poucos absorvendo e meditando sobre o mesmo. Gostei imenso

sábado, 16 de março de 2019

Quem quer casar com um estranho?

Na televisão
1. Há imensas crianças com medo de palhaços. Porque têm uma "bocarra" desenhada com contornos vincados. E uns olhos que saem das órbitas e, em condições normais, intimidam. Porque têm umas mãos grandes e pronunciadas e, sobretudo, tão brancas, que sugerem um bocadinho a morte. Mas os palhaços fazem rir. Começando pelo excesso da sua imagem. Continuando pela forma como pronunciam os gestos. E a própria fala. E engendram patetices óbvias e rábulas previsíveis que, talvez por isso mesmo, nos despertam ternura.

A forma como os palhaços começam por ridicularizar a sua imagem compensa-se com o modo como se empenham em devolver o riso às crianças. Há, portanto, neles uma dimensão de bondade. E é por isso que me incomoda que algumas pessoas, usem "Palhaço!" como um insulto.

A curiosidade que desperta um palhaço não tem só a ver com a sabedoria com que nos resgata para o riso. Mas, também, com a forma como o riso das crianças, sobretudo, nos contagia e, de repente, o mundo parece simples e cúmplice.

Nas feiras, para além dos palhaços, havia uma tenda onde algumas pessoas eram expostas e ridicularizadas pelas suas características físicas. Eram disso exemplo o homem mais alto e o homem baixo do mundo. As pessoas acorriam. Acotovelavam-se. Riam-se. Eram exuberantes nas suas reacções. Faziam comentários humilhantes. Exibiam-se com alguns impropérios que lhes dirigiam. E, depois da chacota, saíam sossegadas.

Já nas histórias - é claro que nada disto parece ter a ver com nada - a Carochinha não se expunha. Ia para a janela e, com preparos que nos deixariam muito zangados se a nossa filha os tivesse, perguntava quem queria casar com ela. O resto da história já a sabem. O João Ratão, talvez porque uma viúva insinuante lhe tivesse aberto o coração, casou com ela e, porque porventura ele fosse mais à procura duma boa cozinheira do que de um grande amor, precipitou-se no caldeirão e morreu cozido. Pela gula, suponho eu.

2. Há, neste momento, muitos programas de televisão em que as pessoas procuram, "em directo e ao vivo", encontrar quem se case com elas. E se expõem de todas as formas possíveis, como se nada as comedisse. Estas pessoas não são palhaços! Mas fazem lembrar o homem mais alto e o homem mais baixo do mundo. Expõem-se! Prestam-se a tudo. E as televisões, movidas pela gula das audiências, esquecendo-se das consequências que ela teve para o João Ratão, criam com estas pessoas uma espécie de tendas de feira, em horário nobre, para que nos possamos entreter com as figuras que elas fazem.

A mim, não me incomoda só a forma como as mesmas televisões que são contra a violência sobre as mulheres incentivam um outro tipo de violência de género, usando mulheres. Alimentando lugares-comuns sobre as mulheres. Sejam elas as candidatas a Carochinha ou as mães do pretenso João Ratão.
Mas incomodam-me, também, os homens. Que se prestam a interpretar o João Ratão. Movidos por uma condição celibatária que parece levá-los a querer uma mulher, utilizando a televisão como uma janela, e fazendo de Carochinha, colocando-se numa posição do género: "Quem quer casar com o João Ratão?…".
E incomodam-me as mães que, por vezes, parecem querer uma cozinheira, uma amante ou outra variante de mulher para o seu filho demitindo-se, todavia (como qualquer mãe tem de fazer) de o interditar a fazer figuras menos abonatórias que, depois dos cinco minutos de fama, o vão ridicularizar para sempre.
E incomodam-me, sobretudo, as pessoas que se sintonizam com estes programas e achincalham, no recato do lar, pessoas consumidas por uma insensatez temporária, não precisando de ir a uma tenda de circo para se sentirem sossegadas de cada vez que descobrem nestes programas uma espécie de espelho mágico que as leva a reconhecer que, havendo tantas pessoas a fazer figuras tão feias, elas só podem ser bonitas. Ora, lembrem-se da madrasta da Branca de Neve: quem precisa de gozar com os outros para se sentir bonito, não vai longe. E, no fundo, sabe bem que talvez seja bem mais feio do que o espelho ou estes programas, lhe dão a entender.
E incomodam-me as televisões. Que, à boleia de formatos importados (como quem nos acena com a evolução dos outros países), expõem pessoas e pactuam com uma espécie de pornografia da "alma" humana que "merdifica" as pessoas como se todos nós não valêssemos nada. É, para mim, uma estranha forma de acarinhar os valores da humanidade. E a democracia!

3. Escuso de vos dizer que, depois de tudo isto, gosto, como aliás nunca gostei, dos palhaços!

DE: EDUARDO SÁ

sábado, 9 de março de 2019

Coisas insignificantes que me acontecem que me fazem feliz!

Depois do almoço fui dar uma volta a pé. Junto a um contentor havia uma pequena pilha de livros. Vi as respectivas lombadas e eis que me deparo com este que há muito andava debaixo de olho mas impossível de comprar numa gestão orçamental bem apertada:)

Logo hoje que fui obrigada a comprar tinteiros para a impressora, considero-me uma mulher de sorte e nem imaginam como fiquei feliz.

Vim para casa, não liguei a televisão e já devorei 150 páginas:)))

terça-feira, 6 de novembro de 2018

A ARTE DE SER FELIZ - Cecília Meireles

A arte de ser feliz

Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Ás vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

Livro "Escolha o seu sonho" de Cecília Meireles

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

MÃE - ANTÓNIO LOBO ANTUNES

Os nossos mal entendidos residiam nisso: eu só me preocupava com o centro da Terra e a minha Mãe queria que eu fosse uma pessoa responsável e séria. Compreendo-a muito bem: no seu lugar faria os impossíveis para impedir um filho meu de se tornar uma espécie de Ícaro a tombar, de asas desfeitas, no negrume do desconhecido

Mãe, sabe, vou dizer-lhe uma coisa, tenho muitas saudades suas, palavra, eu que, na sua opinião, fui o mais difícil dos seus filhos e comecei cedo porque ao nascer quase a ia matando. Quase a ia matando a si e a mim dado que na aflição de a salvarem me esqueceram a um canto, afogado em secreções. Depois, com sete ou oito meses, encontraram-me em coma com a meningite, depois aos dois ou três anos uma tuberculose pulmonar de que me lembro tão bem, do mal estar horrível da febre, de semanas e semanas fechado num quarto, a olhar-me no espelho do armário numa esperança de companhia. Recordo-me do meu avô me trazer presentes à cama e de eu atirar tudo ao chão, furioso, porque não eram presentes que eu queria, conforme vomitava a comida que me davam porque não era comida que me apetecia. Pensando nisso agora afigura-se-me tão óbvio o que eu necessitava. Pouco depois ((...)

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segunda-feira, 28 de maio de 2018

EUTANÁSIA - merece ser lido e relido!

Liberdade, Dignidade e Autonomia na Vida e na Morte
de: Paulo Trigo Pereira


Afirmar que havendo cuidados paliativos e “testamento vital” já não é necessário a possibilidade legal da eutanásia e do suicídio assistido, não é razoável. São, como sabemos, caminhos diferentes.

Ao José Avelino Lima de Faria,
no momento da despedida

1- Cada uma e cada um deve ter o direito de viver a sua vida com liberdade, com dignidade e com autonomia e agir de acordo com a sua vontade, desde que isso não interfira na liberdade dos outros. Os princípios fundamentais que aplico à vida são os que aplico à morte. O que está em discussão pública e que será votado amanhã é apenas isto: a possibilidade de alguém, lúcido, com doença terminal, e grande sofrimento ter a liberdade de solicitar reiteradamente a médicos que a sua dignidade e autonomia sejam preservadas no momento final da sua vida, encurtando-a, e que estes médicos e clínicos não sejam criminalizados por isso. Estou convencido, como a Bastonária da Ordem dos Enfermeiros e o Dr. António Leitão, que a eutanásia é praticada já hoje em Portugal, pelo que este artigo aborda dois tópicos. A legitimidade e a razoabilidade de legislar sobre a eutanásia e as previsíveis consequências da sua aprovação face ao status quo actual. Este artigo é uma crítica aos críticos pelo que me escuso de citar os argumentos dos que o defenderam publicamente no PS – António Costa, Maria Antónia Almeida Santos, Isabel Moreira – no PSD – Pinto Balsemão e Rui Rio. No Bloco – João Semedo ou José Manuel Pureza, entre muitos outros. Estou muito alinhado com o que pensa Alexandre Quintanilha (PS), pelo que coloquei um texto seu no meu site pessoal onde defino esta como uma das prioridades da legislatura.

O campo em que o debate sobre a eutanásia e o suicídio assistido se deve colocar é o dos direitos humanos e é por isso que uma ideia como referendar este assunto é completamente despropositada. Não se referendam direitos humanos. E a questão essencial que se pode colocar é o de saber quem deve ser a entidade que deve ajuizar sobre o sofrimento individual tolerável e aceitável. Cada um de nós terá os seus limites de suporte da dor. Cada um de nós tem a sua concepção do que é uma vida com dignidade. Cada uma de nós terá a sua noção do grau de dependência dos outros, a partir do qual, a sua autonomia, a sua liberdade e a sua dignidade estão seriamente afectadas.(...)

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sábado, 26 de maio de 2018

Os Amigos Nunca São para as Ocasiões - Miguel Esteves Cardoso

Os Amigos Nunca São para as Ocasiões

Os amigos nunca são para as ocasiões. São para sempre. A ideia utilitária da amizade, como entreajuda, pronto-socorro mútuo, troca de favores, depósito de confiança, sociedade de desabafos, mete nojo. A amizade é puro prazer. Não se pode contaminar com favores e ajudas, leia-se dívidas. Pede-se, dá-se, recebe-se, esquece-se e não se fala mais nisso.

A decadência da amizade entre nós deve-se à instrumentalização que tem vindo a sofrer. Transformou-se numa espécie de maçonaria, uma central de cunhas, palavrinhas, cumplicidades e compadrios. É por isso que as amizades se fazem e desfazem como se fossem laços políticos ou comerciais. Se alguém «falta» ou «não corresponde», se não cumpre as obrigações contratuais, é logo condenado como «mau» amigo e sumariamente proscrito. Está tudo doido. Só uma miséria destas obriga a dizer o óbvio: os amigos são as pessoas de que nós gostamos e com quem estamos de vez em quando. Podemos nem sequer darmo-nos muito, ou bem, com elas. Ou gostar mais delas do que elas de nós. Não interessa. A amizade é um gosto egoísta, ou inevitabilidade, o caminho de um coração em roda-livre.

Os amigos têm de ser inúteis. Isto é, bastarem só por existir e, maravilhosamente, sobrarem-nos na alma só por quem e como são. O porquê, o onde e o quando não interessam. A amizade não tem ponto de partida, nem percurso, nem objectivo. É impossível lembrarmo-nos de como é que nos tornámos amigos de alguém ou pensarmos no futuro que vamos ter.
A glória da amizade é ser apenas presente. É por isso que dura para sempre; porque não contém expectativas nem planos nem ansiedade.

Miguel Esteves Cardoso, in 'Explicações de Português'

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Um Refúgio Para a Vida - Saberás quando o encontrares - Nicholas Sparks



(imagem Google)

Sinopse:
"Quando Katie vai viver para uma pacata cidade de Southport, na Carolina do Norte, todos se interrogam sobre o seu passado. Que mistérios esconderá aquela aquela jovem bonita que parece determinada a encobrir os seus encantos e evitar novos laços afetivos,novos relacionamentos? No entanto e apesar de todas as suas reservas, Katie começa a criar raízes naquela pequena comunidade, à medida que uma nova amizade e um novo amor lhe vão fazendo baixar as defesas. Sente-se cada vez mais ligada a Jo, sua vizinha e amiga, e a Alex, o homem por quem se está a apaixonar, mas os fantasmas do passado, que minam a sua capacidade de cinfiar nos outros, continuam a persegui-la, a aterrorizá-la, e o peso do segredo que esconde é demasiado grande...Neste romanca avassalador, Nicholas Sparks traz-nos uma protagonista fragilizada por um amor que se desvirtuou e que tem de aprender a lidar com as suas sequelas se quiser voltar a amar."

Já me ofereceram há uns tempos e tenho mais quatro para ler deste autor que me prende toda a atenção, porque todos os que já li tem como "pano de fundo" factos, emoções e vivências da vida real, muitas delas vividas na primeira pessoa - eu!!!

Este não foi excepção e o segredo de "katie" foi a aterradora e cada vez mais actual "VIOLÊNCIA DOMÉSTICA" entrelaçada com a que de facto vivi a "psicológica" e da qual consegui livrar-me sã e salva!

Sei que existe o filme mas não vi!

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A FORÇA E O PODER DO OTIMISMO

A tecnologia e as redes sociais vieram facilitar a vida em muitos aspetos mas também gerar stresses, ansiedades e negativismos. Aprenda, com especialistas, a dominar a arte do pensamento positivo

E se lhe dissermos que a melhor forma de lidar com os problemas é encará-los com otimismo? Parece algo vago e inconsequente, mas segundo os estudos da psicologia positiva, o otimismo pode realmente mudar o curso dos acontecimentos. Apaixonados por esta forma de ver a vida, os psicólogos Maria do Carmo Oliveira e Manuel de Oliveira decidiram pôr em prática os fundamentos desta disciplina.

Há mais de uma década, juntaram-se e criaram o Clube do Otimismo para nos ajudar a descobrir o que de melhor (e mais positivo) existe em cada um de nós. Cerca de 10 de anos e muitos sorrisos depois compilaram num livro tudo o que aprenderam. Em entrevista à Saber Viver explicam como colocar a sorte a seu favor.

Continuem a ler AQUI porque merece a pena perder um pouquinho do vosso tempo!

Vi-me espelhada em muita coisa porque sou mesmo optimista mas com os pés bem assentes na terra. A "casa" pode estar a desabar mas eu continuo a ACREDITAR que tudo decorrerá pelo melhor e procuro uma porta ou portas de saída. Difícil? Claro que sim. Demora tempo? Claro que sim, mas pelo muito que já passei e passo, não me julgo mais do que os outros mas procuro sempre o lado bom de TUDO porque todos os dias existe esse lado em cada um de nós e sobretudo passar esse testemunho à minha maneira a quem vê tudo negro demais!
Não querem? paciência, mas não os deixo de ouvir porque "tantas vezes o cântaro vai à fonte que um dia fica lá a asa".


terça-feira, 26 de agosto de 2014

LEITURAS

Transporto para aqui este texto do blogue "Luz de Luma, yes party!", que acompanho já há uns anos.
Gosto imenso de o ler por ser uma escrita fácil, mas por vezes tenho de o fazer aos aos poucos para absorver toda a informação, como foi no caso deste. Excelente!

TECNOLOGIA E O FUTURO DAS PROFISSÕES

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

CRÓNICAS DA PRAIA - Encontrei o Tuga

CRÓNICAS DA PRAIA - Encontrei o Tuga

Hoje na praia encontrei o Tuga, ou melhor, um exemplar do Tuga, uma espécie característica do nosso habitat. No encontro de hoje na praia tratava-se de um adulto, acompanhado da mulher e dos filhos, ainda crianças pequenas.
O Tuga, braços tatuados e cabelo curtinho, chega ao areal equipado com uma camisola de alças vermelha, com o emblema do glorioso e com uns calções amarelos e verdes compridos, quase a tocar nas havaianas brancas. Carrega o chapéu de sol, uma geleira e ainda consegue rebocar um dos filhos. Traz um boné de pala e em cima desta poisam uns óculos escuros.
A tribo do Tuga poisou logo bem encostadinha às pessoas que já estão na praia, o Tuga não gosta de estar sozinho. Espetado o chapéu de sol, os miúdos são besuntados com creme protector pela mãe Tuga, enquanto o pai arruma a geleira debaixo do chapéu e em voz bem alta avisa-os para se portarem bem senão volta tudo para casa.
Em seguida pega numa bola e com um pontapé atira-a para longe dizendo aos miúdos para irem jogar e terem cuidado com as pessoas. A bola atirada pelo Tuga tinha, entretanto, acertado num velhote que passeava no sítio errado.
Com o olho nos putos o Tuga senta-se a ler o Record e puxa de um cigarro cuja cinza vai sendo depositada na areia.
Passado pouco tempo os putos aparecem, um deles a chorar porque o outro lhe tinha batido. Aí o Tuga, senta o mal comportado na toalha, acende mais um cigarro, põe os óculos na cabeça, como sabem os Tugas não usam os óculos nos olhos, é na testa ou na cabeça, e vai ele jogar com o irmão.
Dois minutos depois volta e diz para a família ir ao banho. Ouvem-se uns protestos da mãe Tuga, mas a voz alta do pai Tuga é persuasiva e vai tudo para a água.
Quando voltam, a protestar pela frieza da água, juntam-se à volta da geleira donde emergem umas "sandes" para todos, colas para os miúdos, sumo para a mãe e uma mini para o Tuga.
Durante o lanche surge uma discussão sobre a que horas sairiam da praia a que o Tuga, sempre em alta voz, pôs termo dizendo que sairão à hora que ele disser. Esta cena foi-se desenrolando acompanhada de vários telefonemas do Tuga por causa de um problema com a bomba de água do carro de que boa parte da praia ficou ao corrente.
Aquietado o estômago, o Tuga e a família deitam-se nas toalhas e ele volta ao Record e a mais um cigarro, cuja beata irá fazer companhia às anteriores no areal da praia.
Mais não pude perceber porque a minha praia acaba cedo. É sempre um prazer encontrar o Tuga.

do blogue "Atenta Inquietude" - 30 de Julho de 2010

Fujo destes cenários que continuam inalteráveis